Códigos de Ética para gerir riscos e prevenir perdas no varejo

Como criar Códigos de Ética para gerir riscos e prevenir perdas no varejo

A maioria dos varejistas tomam precauções básicas para reduzir perdas em suas lojas: Eles treinam os funcionários, instalam sistemas de vigilância, entre outros. Neste artigo iremos abordar como criar Códigos de Ética para gerir riscos e prevenir perdas no varejo

Mesmo com ações como estas, as perdas no varejo relacionadas a roubos, furtos, problemas operacionais, dentre outros, atingiram a marca de 2,25% do faturamento líquido das empresas varejistas brasileiras.

Um dos maiores índices de perdas já registrados nos últimos anos, o que representa bilhões de Reais jogados no lixo.

Estes dados são da 16ª Avaliação de Perdas no Varejo Brasileiro, realizada pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (IBEVAR). O levantamento foi realizado com cerca de 400 empresas dos seguimentos de supermercados, pequenas e médias empresas, materiais de construção, calçados, vestuário, farmácias e drogarias. Os dados apresentados são referentes ao ano de 2015.

Outro dado relevante é que as perdas no varejo brasileiro são consideravelmente maiores dos que as registradas em outros países.

Perdas no Varejo - Jamil Chokr

Fonte: IBEVAR

Como melhorar esse cenário

Várias são as estratégias para mitigar as perdas no varejo, mas o essencial e imprescindível é a mudança na cultura da empresa. Para isso é necessário que todos os departamentos e colaboradores estejam engajados e conscientes da importância da sua participação ativa na política de prevenção de perdas.

Quando questionadas sobre seus valores, a grande maioria das empresas pode fornecer um documento chamado código de ética ou código de conduta, no entanto, muitas vezes o que está escrito no código não condiz com o que elas realmente valorizam como comportamento ético.

Um grande vilão dos departamentos de prevenção de perdas é achar que a política de ética de uma empresa vai funcionar perfeitamente em outra, pois não levam em conta diversos fatores, como: 

  1. tamanho da empresa
  2. quantidade de lojas
  3. cidades onde atuam
  4. público-alvo
  5. nível de conhecimento e treinamento da equipe
  6. tecnologia, onde o valor do investimento pode variar muito de empresa para empresa.
  7. cultura, ou o jeitão que a empresa tem para aceitar mudanças e fazer as iniciativas funcionarem na prática

Por isso é vital a construção e implementação de um código de ética que realmente funcione e de uma equipe permanente de prevenção de perdas, e não apenas gente disposta a apontar falhas ou pegar bandidos.

Caminhos para solução

Apresentaremos seis passos para que a política de gestão de riscos para prevenção de perdas de sua empresa seja eficaz:

1 Desenvolvimento de um Código de Ética que funcione na prática

Os elementos essenciais de um código incluem garantias de apoio a políticas de Liderança Organizacional, orientação prática sobre o que se espera em relação às questões éticas, compromissos entre as partes, exemplos de perguntas e respostas, modelos de cenários, detalhes sobre como o código será implementado e monitorado e as consequências das más condutas.

Também devem ser incluídas indicações para apoio, aconselhamento e demais políticas relevantes para a empresa.

O código de ética deve ser um elemento vivo e não um pedaço de papel bonito. Deve ser reforçado constantemente.

2 Desenvolvimento de uma equipe permanente de prevenção de perdas

A prevenção de perdas internas e externas requer a implementação de muitas estratégias em áreas diferentes. Ter a liderança e uma equipe de apoio bem treinada pode garantir que haja engajamento de toda a organização para as políticas de prevenção de perdas.

Acredite, cada real investido em uma equipe de prevenção vale centenas em economias pela redução consistente de perdas.

3 Criação de campanhas de comunicação e sensibilização

A comunicação da política de ética de uma empresa é um processo contínuo e nunca termina, por isso, esteja atento a promover periodicamente campanhas de comunicação e de sensibilização.

Nesta hora não é apenas o RH quem deve estar envolvido, mas o Marketing que tem habilidades extras para comunicação e engajamento de campanhas.

A comunicação não deve ser apenas para os colaboradores, mas também para fornecedores, clientes e parceiros. Todos devem estar envolvidos com uma nova cultura impactante na gestão de riscos e perdas.

4 Treinamentos práticos

Muitas empresas oferecem treinamentos online sobre ética e responsabilidade, mas isso nem de longe é suficiente.

Nada substitui o treinamento presencial e qualitativo, com uma discussão mais ampla e debates para compreensão e aplicação prática do código de ética.

A discussão sobre cenários pode ajudar os colaboradores a explorar questões éticas durante os treinamentos. Por exemplo, a Stryker, uma produtora de dispositivos médicos, analisou eventos que ocorreram dentro de sua indústria e construiu um conjunto de cenários baseados neles.

Para criar o contexto, a Stryker criou uma empresa fictícia com história pregressa, missão e organograma.

Esse cenário foi apresentado à equipe e eles foram convidados a conhecer o código de ética desta empresa para assim, identificar quais normas estavam sendo desrespeitadas.

Após a discussão foi revelado aos participantes que todos os cenários eram reais e ocorreram na Stryker, no passado, ajudando os colaboradores a levar esse conhecimento para sua realidade cotidiana.

5 Desenvolvimento de programas de diálogo para suporte à cultura ética

Cada vez mais empresas estão incluindo matérias relacionadas à ética em suas avaliações de desempenho. Por exemplo, os contadores de uma empresa podem ser perguntados se eles foram desafiados ou se anteciparam e solucionaram alguma questão que poderia resultar em fraude. No caso dos gerentes, sua equipe antecipa problemas e procura soluções claras?

Na Siemens a estratégia é concentrar-se na redução das falhas de comunicação entre a alta administração e os colaboradores nos níveis mais baixos da empresa.

No ano de 2013 a empresa introduziu “diálogos de integração”, nos quais treinamentos de reciclagem de políticas e procedimentos são feitos em toda a estrutura da empresa.

Os diretores eram treinados, passavam aos seus coordenadores, que por sua vez, repassavam aos seus subordinados diretos.

Na execução desta prática os líderes falam sobre integridade e ensinam como eles mesmos negociam. O diálogo então é feito em todas as reuniões para suscitar uma discussão aberta sobre questões éticas e como elas devem ser resolvidas

6 Apresentação de indicadores e a evolução dos resultados

É fundamental o desenvolvimento de indicadores de gestão de perdas e seu acompanhamento periódico. É comum, principalmente em pequenas e médias empresas de varejo, apenas os donos ou a diretoria conhecerem tais números, quando há.

Varejistas que têm obtido maior sucesso na redução de suas perdas têm os números disponíveis e os apresentam e discutem com toda a equipe de colaboradores, para que as causas sejam atacadas e a redução de perdas aconteça na prática.

A transparência é uma das principais formas de engajar a equipe em um projeto.

Construir um Código de Ética não é o suficiente

Para que o Código de Ética seja bem sucedido, sua concepção deve envolver todos os interlocutores com os quais a empresa se relaciona, por isso é de suma importância a participação de profissionais especializados que vão orientar a construção dessa nova cultura, apontar sua visão sobre os diversos cenários e colaborar na elaboração de medidas preventivas e, principalmente, como colocá-las em prática.

Empresas como Petrobrás, Andrade Gutierrez, Camargo Correia, Arthur Andersen e Banco Panamericano têm seus códigos de ética muito bem estruturados, além de programas de incentivo e treinamentos regulares, porém, isso não foi o bastante para evitar que estivessem envolvidas em inúmeras irregularidades, corrupção passiva, ativa e o mais importante, com perdas enormes, tanto financeiramente, quanto para sua imagem, como podemos constatar todos os dias nos noticiários.

Algumas dessas empresas, inclusive, decretaram falência devido às consequências das fraudes e das perdas.

Desenhar códigos de conduta que ficam engavetados, muitas organizações já fazem. O importante é fazer diferente, independente do tamanho da sua empresa. Somente trabalhando a cultura da organização é possível verdadeiramente gerenciar riscos e diminuir as estatísticas de perdas no varejo.

por Jamil Chokr – Advogado na J.Chokr Advogados

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